Goiânia (GO) - O quadro comparativo entre os dois sumários de touros gir feito pelo criador tocantinense Pedro Silveira mexeu com os criadores e com a comunidade científica que lida com melhoramento genético do zebu. Recebo um artigo da professora Vânia Maldini Penna, responsável pelo Moet do Guzerá e que foi sondada para chefiar o Moet do Gir, colaborando com o debate. Publico o e-mail e o artigo de Vãnia Penna.
"Caro Rosimar,
Tenho acompanhado as polêmicas sobre as discrepâncias nas DEPs (PTAs) de alguns touros nos diferentes sumários da raça Gir. Como estamos “no mesmo barco” buscando o aprimoramento da aptidão leiteira do zebu, envio alguns comentários (no anexo) com o intuito de ajudar a aclarar alguns aspectos. Espero que sejam de alguma utilidade. Como sempre estou a seu dispor para eventuais esclarecimentos.
Atenciosamente",
Vânia
Discrepâncias nas avaliações genéticas de
alguns touros nos dois sumários da raça Gir
Vânia Maldini Penna – 02/04/2008
Do ponto de vista técnico e prático, quando se trabalha com duas bases de dados distintas, espera-se que os valores genéticos dos touros sejam também distintos, pois são estimados com base nos desvios das diferentes bases.
Mas os criadores que assustam e reclamam de grandes inversões na classificação de alguns animais, têm sua razão. Algumas inversões são de fato esperadas, mas alguns touros altamente positivos em um sumário se tornarem muito negativos em outro e vice-versa, indica sim, a existência de algum problema.
E onde estaria este problema? A meu ver, não está na metodologia utilizada nas avaliações. Ambas utilizam a mesma (modelo animal BLUP), que é moderna, robusta e completamente adequada. Muito menos nas equipes técnico-científicas, ambas altamente gabaritadas, competentes e confiáveis.
Venho lidando a mais de 30 anos com análises genéticas com dados de gado zebu. Com esta experiência tenho praticamente uma certeza. Estas discrepâncias devem surgir principalmente dos bancos de dados.
Uma das causas, é que uma das avaliações, inclui dados de filhas dos touros em rebanhos puros e mestiços. Por sinal, ação muito inteligente, lógica e prática, já que o principal mercado para os reprodutores e sêmen é para uso em cruzamentos. A outra avaliação inclui apenas rebanhos puros. Assim, é lógico se esperar que existam touros que tenham diferentes efeitos nas diferentes populações.
Um estudo da própria Embrapa - Gado de Leite demonstrou que a correlação entre a avaliação dos touros “apenas nos rebanhos mestiços” e “apenas nos puros” era muito baixa. Assim, um ótimo touro para os rebanhos puros não era, necessariamente ótimo nos rebanhos mestiços e vice-versa. Felizmente, demonstrou também que a correlação entre a avaliação geral (com os dados dos rebanhos puros e mestiços) e as “apenas nos puros” ou “apenas nos mestiços” eram bastante altas, justificando seu uso para um mercado que ora prioriza o cruzamento (maioria das vezes) ora a raça pura.
Aí também pode estar incluído o problema de interação genótipo ambiente. Sabemos que, em geral, os rebanhos mestiços adotam um manejo que seja economicamente viável. Médios insumos, produção que maximize o lucro. Nos rebanhos puros existem manejos muito mais sofisticados visando maximização da produção (inclusive para uso publicitário) e, ao mesmo tempo, alguns tão rústicos, a ponto de permitir apenas a produção de bezerros e não a produção de leite em patamares comerciais. Sendo a interação genótipo ambiente importante, a superioridade num destes ambientes pode não se repetir nos demais.
Com relação a estas peculiaridades da avaliação genética do Gir, o necessário é apenas se ter consciência que inversões podem ocorrer, sim. Resta apenas optar pela produção de genética superior apenas para rebanhos puros, apenas para mestiços, ou para um conjunto que inclua ambos os tipos de rebanhos. E em manejos ótimos ou realistas. E gerar dados e fazer análises para atender o que for o objetivo de fato.
Como tenho ouvido muitas vezes que “o uso de filhas mestiças na avaliação de certos touros deve superestimá-los por causa da maior produção das mães holandesadas...” é importante salientar que, desde que feitos ajustes para grau de sangue das filhas, com a metodologia atual isto não pode acontecer.
A outra causa destas discrepâncias está na geração dos dados. A qualidade dos dados é a base de uma boa avaliação genética. Infelizmente, são encontradas muitas falhas na geração de dados de zebu, em geral, e do leiteiro em particular. Desde os problemas de genealogia, passando pelo controle leiteiro de apenas alguns animais superiores (controle seletivo), manejo diferenciado de contemporâneos sem a devida notação (alimentação diferenciada, uso de hormônios, etc.), erros de aferição e anotação, etc. Mesmo que casos de má fé sejam raros, problemas de descuido, de desconhecimento ou falta da devida orientação para se gerar dados de alta qualidade que viabilizem avaliações genéticas de elevada confiabilidade são muito freqüentes.
Não tem geneticista ou estatístico, por mais competente que seja, por melhor que trabalhe os dados que recebe, capaz de eliminar completamente eventuais vícios e erros vindos da fazenda. E como diz o pessoal da computação: se lixo entra, lixo sai.
Amigos, se não investirmos numa boa geração de dados, não adianta contratar os melhores cientistas do mundo, nem usar a melhor metodologia estatística que não será possível conseguir uma avaliação genética confiável. O investimento na aferição (e avaliação genética subseqüente) é muito alto, seja ela bem ou mal feita. Mas se é bem feita, produz avaliações confiáveis permitindo progresso genético e lucros conseqüentes. É de fato investimento. Se for mal feita, é dinheiro jogado fora.
Enfim, na minha opinião, a solução está na definição clara dos objetivos e nos cuidados com a geração de dados de alta qualidade. Penso também, que talvez seja necessário informar melhor aos criadores em geral da importância deste aspecto, bem como treiná-los e orientá-los melhor sobre este trabalho. Se existem problemas, o correto é trabalhar para solucioná-los.
Profa Dra Vânia Maldini PennaMédica-Veterinária, D;SC. – Diretora Técnica do CBMGCentro Brasileiro de Melhoramento do Guzerávaniaa@ciclope.lcc.ufmg.brNota do Editor:
A professora Vânia Maldini Penna, possui graduação em Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Minas Gerais (1975) , mestrado pela Universidade Federal de Minas Gerais (1980) e doutorado em ciências pela Universidade de São Paulo (1990) . Atualmente é PROFESSORA ADJUNTA IV da Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiência na área de Zootecnia , com ênfase em Genética e Melhoramento dos Animais Domésticos. É uma das responsáveis pelo MOET do Guzerá.